29 octobre 2014

DOM HELDER CÂMARA E O MARXISMO: UM DIÁLOGO POSSÍVEL. Renato Torres Anacleto Rosa



Renato Torres Anacleto Rosa

 Mestrando em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob a orientação do Prof. Dr. André Leonardo Chevitarese. Agência Financiadora: CAPES-Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.


Resumo: O presente artigo discorre sobre o diálogo de Dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife entre 1964 e 1985, com a doutrina marxista durante os anos do regime militar brasileiro. Para atingir esse escopo, utilizamos os discursos do arcebispo frente ao Marxismo, enfatizando a relação profícua entre o mesmo com o dirigente do Comitê Central do Partido Comunista Francês, Roger Garaudy. Por fim, ressaltamos que as práticas discursivas de Dom Helder frente ao Marxismo contemplavam suas concepções da realidade, que veiculavam projetos de justiça social e de desenvolvimento humano.
Palavras-chave: Marxismo- Dom Helder Câmara- Roger Garaudy- Regime militar brasileiro- Concílio Vaticano II.
Abstract: This article aims to discuss the dialog between Dom Helder Câmara, bishop of Olinda and Recife, with Marxism on the period of the brasilian civil-militar regime. We utilized bishop´s speeches about Marxism and aspects of the relationship between Dom Helder and Roger Garaudy, member of the Central Commite of French Communist Party. At last, it was emphasized the Dom Helder Câmara´s speeches about Marxism douctrine, showing his conceptions of the reality relationed to the social justice and human development.
Key-words: Marxism- Bispo Helder Câmara- Roger Garaudy- Militar Regime- Vatican II Council. RJHR VI:10 (2013) – Renato Tores Anacleto Rosa 34

 
INTRODUÇÃO:
Dom Helder Câmara é um dos personagens de maior realce da História do Brasil contemporâneo. Seu nome é reconhecido nacional e internacionalmente pelos projetos de desenvolvimento humano realizados no nordeste brasileiro, nos anos do regime militar brasileiro, entre 1964 e 1985.
No entanto, esse trabalho não contribuirá para o desenvolvimento dessa temática, mas num problema negligenciado pela historiografia tradicional eclesiástica: a contribuição de Dom Helder Câmara para o diálogo entre cristãos e marxistas. Durante os anos do regime militar, o arcebispo fora concebido como “arcebispo vermelho”, tanto pelas suas práticas de justiça social quanto por sua aproximação com o ex- presidente do Partido Comunista Francês, Roger Garaudy. De acordo com a pesquisa feita pelo jornalista Marcos Cirano, no tocante à forma como os meios de comunicação concebiam Dom Helder, o jornalista assevera: “os discursos do arcebispo causaram euforia nos meios de comunicação, tendo esses jornais acusando-o de comunista, vedete e demagogo” (CIRANO, 1983: P. 15).
O contexto que subjaz a esse diálogo coincide com a renovação irrompida no seio da Igreja Católica, à luz dos eventos do Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965, e da Teologia da Libertação, a partir da década de 1960, em solo latino-americano.
Nas palavras de Maurílio de Oliveira José Camello, o concílio “abriu as janelas da Igreja, desarrumando papéis e idéias. Houve importantes alterações nas relações intra-eclesiais e da Igreja com o mundo”. (CAMELLO, 1997: P. 75). Em contexto latino-americano, a aproximação entre cristãos e marxistas se deu na década de 1960 com a Teologia da Libertação, que, analisando as estruturas concretas da sociedade, clérigos, operários, mulheres e leigos buscavam responder às práticas que subjugavam o homem e a sociedade (LOWY, 1986: P. 65).
À luz desse panorama, o artigo se desdobrará a partir dos seguintes temas: (I) os discursos de Dom Helder Câmara e Roger Garaudy no qual se referem ao diálogo entre os mesmos; (ll) a representação de Dom Helder Câmara frente ao “neomarxismo”; e (lll) a relação do arcebispo com o marxismo como forma de crítica o cristianismo. Para atingir esses fins, foram utilizadas reportagens de jornais e literaturas que versaram sobre o relacionamento de Dom Helder Câmara com o marxismo, levando em consideração o exame das práticas discursivas do arcebispo.RJHR VI:10 (2013) – Renato Tores Anacleto Rosa 35

1. A amizade entre Dom Helder Câmara e Roger Garaudy.

“Os prelados da nova Igreja tem como mestre o comunista francês Roger Garaudy, cujos sofismas são religiosamente endossados e divulgados por Dom Helder Câmara e que concentra sobre si toda a admiração de Dom Jorge Marcos” (JORNAL DA TARDE, 1968: P. 4). É com essas linhas que o “Jornal da Tarde”, de 1968, critica a relação entre Dom Helder Câmara e Roger Garaudy.
Roger Garaudy foi um intelectual francês, nascido em Marseille, escritor de livros que versaram sobre literatura, religião, filosofia e ciência. Doutorou-se em Letras e em Filosofia. Atuou na Resistência, foi preso e deportado para o sul da Argélia por três anos.
Além da carreira intelectual, Garaudy foi membro do Comitê Central do Partido Comunista Francês, tendo rompido com o mesmo em 1970. No momento de sua saída, afirmou: “A União Soviética não é um país socialista” (ROCHA, 1999: P. 29). O filósofo francês, na opinião de Maria Conceição Pinto de Góes, “foi um dos mais influentes defensores de uma aproximação entre cristãos e marxistas” (GÓES, 1999: P. 16).
O referido diálogo, conforme Garaudy, “não se desenvolve sem inquietações, resistências e cóleras. Ele exige que tanto cristãos e marxistas estejam sensíveis às renovações que precisam fazer dentro de suas doutrinas” (GARAUDY, 1969: P. 13)
No lado marxista, exige que a religião não deve ser concebida como “ópio do povo”. Esse novo marxismo pressupõe a superação da tendência economicista e, nos regimes socialistas, de uma “metafísica” do Estado, para admitir uma autonomia das superestruturas (PORTELLI, 2002: P. 13).
No lado cristão há de se considerar o movimento iniciado com o Concílio Vaticano II, que nas palavras de Maria Conceição Pinto de Góes, “foi um divisor de águas na Igreja Católica, fazendo com que a Igreja mexesse nas obras do Criador e se aproximasse do mundo” (GÓES, 1999: P. 17).
O encontro de Dom Helder Câmara com Garaudy ocorreu em maio de 1967, no pós-Concílio Vaticano II, num simpósio alusivo à comemoração da encíclica papal “Pacem in Terris” (Paz na Terra), de 1963, do sumo pontífice João XXIII. Naquele momento, o arcebispo procurou Garaudy e propôs o seguinte pacto: “Não é verdade que exista um vínculo necessário entre religião e alienação. Faça-o compreender a seus amigos comunistas. De minha parte eu me comprometo a fazer o possível para obter da Igreja que ela aceite o socialismo” (PILETTI e PRAXEDES, 1997: P. 411).
Em sua trajetória intelectual e política, Roger Garaudy sempre questionou os paradigmas dogmáticos: ora religiosos, ora políticos. Prova disso foi a sua saída da RJHR VI:10 (2013) – Renato Tores Anacleto Rosa 36
direção do Partido Comunista, como fora formado, em 1970 e sua proposta de dialogar com um representante de uma doutrina que sempre foi concebida como antítese ao do pensamento marxista.
Nessa linha de raciocínio é importante trazer a lume um depoimento de Garaudy frente a Dom Helder Câmara, em 1970:
Tenho em Dom Helder um irmão radical. Há anos percorremos o mesmo caminho, assim como o abade Pierre. E cada um de nós tem visões muito diferentes, mas coincidimos no essencial. No momento sou muçulmano, mas mesmo assim fui convidado em Madri para fazer uma longa meditação para 540 religiosas e 90 teólogos católicos sobre a descoberta de Deus, a procura de Deus, a busca de Deus. Dom Helder Câmara deveria estar lá, pois tanto quanto eu é movido pela esperança. O meu encontro com ele é o encontro de uma vida. Especialmente agora quando me convenço de que é preciso passar da filosofia do ser para a filosofia do ato. Precisamos transformar o mundo” (PILETTI e PRAXEDES, 1997: P. 401).
Essas linhas demonstram o postulado de que o relacionamento de Dom Helder e Garaudy ultrapassava a questão da afetividade e se ancorava numa relação de ideias e pensamentos, cujos objetivos eram de transformar o mundo. É necessário destacar que o contexto brasileiro subjacente a esse diálogo é do regime militar, onde a aproximação de um bispo com um representante marxista mundial era vista como perigosa e, para os representantes do governo, “paradoxal”.
O Golpe civil-militar brasileiro foi justificado como a solução de afastamento do comunismo em defesa da lei e da ordem. À época do regime, inúmeros jornais, como “O Estado de S. Paulo”, além do “Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais”- IPES e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, teceram louvores ao Golpe recém-instaurado. Nesse sentido, o “comunismo”, juntamente com a doutrina que inspiraria esse movimento, o marxismo, seria alvo de críticas e resistências.
Dezembro de 1968: momento capital para os rumos do regime militar brasileiro. O Ato Institucional n. 5, caracterizado como o “Golpe dentro do golpe” (FICO, 2001, P. 13) aboliu o habeas corpus, fechou o congresso e deu supremos poderes ao Executivo cabendo a ele a intervenção no Legislativo e no Judiciário. Kenneth Serbin afirma que: “Um cientista político que visitava o Brasil observou que o AI-5 provia as Forças Armadas brasileiras de mais poderes do que Mussolini havia reunido na Itália Fascista” (SERBIN, 2001, P. 56).
Em 1969, após a edição do Ato Institucional n. 5, padres, freiras e agentes da pastoral foram presos, torturados e exilados e até assassinados. “A primeira morte, a mais chocante, foi o brutal assassinato do padre Henrique Pereira Neto no RJHR VI:10 (2013) – Renato Tores Anacleto Rosa 37
Recife, pelo “Caça de Comando aos Comunistas”- CCC. O verdadeiro alvo da ação era Dom Helder Câmara” (SERBIN, 1997: P. 17).
Nota-se, por conseguinte, que a conjuntura não era favorável a um diálogo entre um cristão e um marxista preocupados em transformar a realidade. Segundo Dom Helder, “a colaboração entre marxistas e cristãos se traduz em trabalhar juntos por um mundo de maior justiça, sem que isto imponha aos cristãos a filosofia materialista que está na base do marxismo, e se os marxistas respeitam nossas convicções, considero perfeitamente possível um trabalho em comum”. (FERRARINI, 1992: P. 239).
Na edição de maio de 1978, o jornal “Pasquim” publica uma densa entrevista com Roger Garaudy, intitulada “O Novo Cristão”. Na entrevista o filósofo francês aborda temas como cultura, filosofia, ciência e, principalmente, religião. É interessante observar o que está escrito na capa do jornal: “Entrevista pasquiniana com Garaudy: todo cristão deve ler!” (PASQUIM, 1978: P. 1)
Dentro da problemática da religião, Garaudy não deixa de mencionar o arcebispo de Olinda e Recife. Indagado por Ziraldo sobre a natureza da relação entre os dois, Garaudy responde que os pensamentos deles eram muito convergentes e que, além disso, lera todos os livros do arcebispo publicados em francês. (PASQUIM, 1978: p. 30)
No tocante às suas práticas discursivas, o arcebispo de Olinda e Recife se serviu de sua fala para representar a realidade e, consequentemente, representar o marxismo. Vejamos qual concepção do marxismo Dom Helder Câmara se propôs a dialogar. 

2. DOM HELDER CÂMARA E O “NEOMARXISMO”.

O marxismo, como doutrina filosófica que objetiva compreender a totalidade do real, não está ancorado numa concepção hermética e homogênea. Em noutros termos, há marxismos e não marxismo. Nessa perspectiva o marxismo que Dom Helder se propôs a dialogar foi o marxismo caracterizado, grosso modo, pela ruptura da doutrina clássica, à luz da hermenêutica gramsciana, que limitou as dicotomias entre estrutura e superestrutura e a questão do economicismo, colocando em relevo a questão da subjetividade (PORTELLI, 2002: p. 14).
Dom Helder concebeu esse de tipo marxismo como “neomarxismo”. Em grande parte de seus discursos o arcebispo enfatiza que só é possível dialogar com esse novo marxismo.
No limiar do século XX a doutrina marxista foi ganhando novos problemas, novas interpretações. O marxista que “revolucionou” essa doutrina foi o pensador RJHR VI:10 (2013) – Renato Tores Anacleto Rosa 38
italiano Antonio Gramsci. Os escritos de Gramsci, principalmente os cadernos de cárcere, são compostos de temas variados, principalmente os que aludem à “superestrutura”, como religião, arte e cultura. Cabe ressaltar que Gramsci não negligenciou as temáticas tradicionais da política e da economia, mas as pensou a partir desses temas análogos à subjetividade.
Voltando à questão dos discursos de Dom Helder, o tema do “neomarxismo” foi axial para o estabelecimento de um diálogo com essa doutrina.
Em 1972, o jornal “Politika” publicaria uma reportagem com o arcebispo quando o Departamento de Ordem e Política Social (DOPS) proibiu sua publicação, destruindo os exemplares já impressos. Em 1979 o jornal “Amigo do Povo” trouxe à tona parte da entrevista. Indagado sobre o papel do marxismo na atual conjuntura, Dom Helder responde ao “Politika”:
Apenas lembraria que hoje, entre os marxistas, existe o neomarxismo. Penso, pelo menos, em homens como Roger Garaudy”. Dom Helder dá prosseguimento à sua argumentação: “Os marxistas que caminham para o neomarxismo, para uma revisão do marxismo, em vez de ficarem repetindo o que Marx disse, o que Marx pensou, procura agir, agora de acordo com a realidade que aí está (AMIGOS DO POVO, 1979: P. 13)
Essas letras ilustram a concepção que o arcebispo tinha da doutrina marxista. É claro notar que Dom Helder é resistente a qualquer dogmatismo que, no caso do marxismo, sacraliza Karl Marx, não vendo limitações em seus pensamentos. Destarte, Roger Garaudy tem um destaque especial nessa fala, pois é considerado o principal representante da renovação doutrinária que o pensamento marxista sofreu.
É importante salientar a informação de que essa entrevista foi destruída por parte do governo. Vejamos a razão dessa destruição.
Em 1970, o arcebispo foi convidado para realizar um discurso em Paris, com a finalidade de colocar em evidência a questão da conjuntura política brasileira. Segurando uma rosa vermelha que recebera na entrada, Dom Helder iniciou a palestra ressaltando o tema da mesma: “Quaisquer que sejam as consequências.” Nela, o arcebispo relata dois casos de tortura que acabara de irromper no Brasil, afirmando que os “exemplos dados não eram casos isolados, antes eram a regra no que concerne aos presos políticos”. (PILETTI e PRAXEDES, 1997: p. 379)
Após esse discurso em Paris, Dom Helder Câmara foi silenciado pela mídia brasileira, tendo seu nome vetado entre 1970 e 1977. Durante esses anos de RJHR VI:10 (2013) – Renato Tores Anacleto Rosa 39
silêncio seus discursos no Brasil resumiram-se, então, a rádio local de Olinda e às entrevistas dadas em solo estrangeiro.
Em 1967 o arcebispo foi paraninfo dos alunos da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista, em São Paulo. Em sua prédica, novamente vemos a importância que o religioso dá a Garaudy e ao “neomarxismo”: “Se é verdade que Estados dominados pelo marxismo ainda mantêm ateísmo militante e valorização suprema da matéria, filósofos marxistas, como Roger Garaudy, que propõe a renovação do marxismo, tenta o diálogo entre cristãos e marxistas” (EXPOSITOR CRISTÃO, 1968: P. 3).
Concluindo, faz-se necessário reiterar a seguinte premissa: Dom Helder Câmara deixou claro que o diálogo dele com o marxismo só poderia ocorrer com um marxismo que se despisse de seus dogmas e que relativizasse os seus preconceitos frente ao cristianismo. 

3. A VALORIZAÇÃO DO MARXISMO COMO CRÍTICA AO CRISTIANISMO.

Em sua trajetória na liderança da Igreja Católica brasileira, Dom Helder Câmara sempre teve uma visão crítica frente à religião que estava inserido. Com efeito, os discursos de Dom Helder não estavam amparados numa concepção “mítica” e “triunfalista” do catolicismo.
No mesmo discurso proferido na Faculdade do Seminário metodista, em 1967, o arcebispo sublinha: “O diálogo convida a se imaginar o que representaria para os marxistas descobrir uma religião que não tem nada de alienada e alienante” (EXPOSITOR CRISTÃO, 1968: P.3).
Karl Marx, o filósofo alemão que desenvolveu o materialismo dialético e histórico, conceituou a “religião” como “ópio para o povo” (MARX, 2000: P. 34). Em outras palavras, Marx tecia críticas à religião cristã em virtude do divórcio que ela tinha com a sociedade: para essa visão, o mundo utópico se sobrepunha ao mundo sensível. Por conseguinte a expressão “ópio para o povo” tornou-se aforismo transformando-se numa concepção clássica da interpretação marxista sobre o fenômeno religioso (LOWY, 1996: P. 11).
No entanto, Michael Lowy, um pesquisador francês da doutrina marxista, ressalta que no marxismo existem novas formas de se conceituar a religião, evitando a forma cristalizada de concebê-la como “ópio para povo”. Como exemplo, temos o caso de Friedrich Engels que pesquisou sobre o cristianismo primitivo, relacionando-o com o movimento operário inglês. Um outro exemplo relevante é o caso de Ernest Bloch, que cunhou o termo “homologias estruturais” para enfatizar que existem ideários comuns partilhados pelo marxismo e pelo cristianismo, a RJHR VI:10 (2013) – Renato Tores Anacleto Rosa 40
saber: a importância da comunidade e a crença num reino futuro de igualdade social (LOWY, 1996: P. 14-16).
Em 1970, no livro “Revolução dentro da paz”, Dom Helder Câmara novamente expõe seu posicionamento frente ao catolicismo: “Se Marx tivesse convivido com cristãos mais encarnados, de olhos abertos para a realidade do próximo, menos presos e mais corajosos para exigir estruturas mais humanas e justas, possivelmente teria chegado a outra ideia sobre a religião”. (CÂMARA, 1968: P.10)
É claro notar a relativização do arcebispo frente ao marxismo e, consequentemente, a sua valorização dessa doutrina. Esse depoimento, pela forma objetiva de seu discurso, ganhou debate na mídia impressa. No mesmo ano a Revista “O Cruzeiro” expõe essas letras na edição do dia 22 de setembro de 1970, enfatizando os “elogios” que o arcebispo de Olinda e Recife tecia ao marxismo. (O CRUZEIRO, 1970: P. 2).
Esse trecho do discurso nos remete a uma consideração que Dom Helder fez a Louis-Joseph Lebret, quando do lançamento do livro “Economia e Humanismo” de autoria do padre belga. Antes dessa consideração, algumas informações sobre o padre. Conforme Michael Lowy, os teólogos latino-americanos se influenciaram pelo pensamento do padre Lebret (LOWY, 2004: P. 137). O mesmo, em seus artigos, chamou a atenção da Igreja e do mundo ocidental para as questões do subdesenvolvimento e da necessidade de solidariedade com os países pobres. Ademais, participou da redação de documentos conciliares como o “Gaudium et Spes” e foi o inspirador da encíclica “Populorum Progressio” (Desenvolvimento dos Povos), 1967, durante o pontificado de Paulo VI.
Por conseguinte, Dom Helder reitera: “Quem te condecorou em nome do Cristo foi Karl Marx, levado ao céu pela crítica ao capital. E a incompreensão face à fé¿ A culpa foi dos cristãos que encontrou em volta e lhe deram visão errada de Cristo e do cristianismo” (PILETTI e PRAXEDES, 1997: P. 409).
“Que faria S. Tomás de Aquino diante de Karl Marx” Esse foi o nome dado à palestra proferida por Dom Helder em Chicago, Estados Unidos, em 1979. Nessa palestra o arcebispo aborda inúmeros aspectos da doutrina marxista, dando veemência ao possível diálogo entre cristãos e marxistas.
Após criticar o marxismo clássico, Dom Helder reitera: “Há verdades a redescobrir e a valorizar no marxismo” (COMBLIN, PINHEIRO e PUTRICK, 1983: P. 156). Ele prossegue: “O que Marx sustenta a propósito de Religião como força alienada e alienante, deveria valer como alerta permanente para os fiéis de todas RJHR VI:10 (2013) – Renato Tores Anacleto Rosa 41
as religiões e, evidentemente, também para nós cristãos” (COMBLIN, PINHEIRO e PUTRICK, 1983: P.156). 

À GUISA DE CONCLUSÃO
No limiar dos anos do regime militar brasileiro, Dom Helder Câmara foi objeto de intenso debate em virtude de seu projeto de justiça social que o fazia dialogar com personagens que não professavam a fé cristã.
Esse artigo pretendeu demonstrar que o “arcebispo vermelho”, assim chamado por grande parte da mídia impressa (FERRARINI, 1983 : P. 15), se serviu do diálogo com o marxismo para dar legitimidade a um projeto mais abrangente: um projeto de um mundo melhor! Na palestra nos Estados Unidos, em 1974, Dom Helder cita um pensamento de Garaudy: “fé e militância são irmãs”. (COMBLIN, PINHEIRO e PUTRICK, 1983: P. 156). Para Dom Helder Câmara essa premissa de Garaudy era fundamentada nas iniciativas do Vaticano II e da Teologia da Libertação. Além da aproximação da Igreja com o marxismo, esses acontecimentos deram um passo importante para a reflexão sobre o pobre e as soluções políticas que a instituição iria propor para esse problema. Nesse contexto, está a dialética entre mística cristã e práxis política, onde a espiritualidade estaria na própria ação e não restrita à contemplação do sagrado.
Nesse horizonte, cabe concluir que o arcebispo de Olinda e Recife encontrou uma conjuntura eclesiástica favorável ao seu compromisso em dialogar com o marxismo e com Roger Garaudy. É notória a influência de Dom Helder Câmara nos livros e na vida do filósofo francês, como diria este último: “O encontro com Dom Helder é o encontro de uma vida” (GARAUDY, 1999: P. 29). RJHR VI:10 (2013) – Renato Tores Anacleto Rosa 42 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CIRANO, Marcos. Os caminhos de Dom Helder: perseguições e censura. Recife: Guararapes, 1983.
FERRARINI, Sebastião Antonio. A imprensa e o arcebispo vermelho. São Paulo: Paulinas, 1992.
GARAUDY, Roger. Do anátema ao diálogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.
______. Homenagem a Dom Helder Câmara. In: ROCHA, Zildo. Helder, O Dom: uma vida que marcou os rumos da Igreja no Brasil. Petropolis-RJ: Vozes, 1999.
GÓES, Maria Conceição Pinto de. A aposta de luiz Ignácio Maranhão Filho: cristãos e comunistas na construção da utopia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999.
LOWY, Michael. A Guerra dos Deuses: política e religião na América Latina. Petropolis-RJ: Vozes, 1996.
______. Cristianismo da Libertação e marxismo: de 1960 a nossos dias. In: REIS, Daniel Aarão e RIDENTE, Marcelo. São Paulo. Record: História do Marxismo no Brasil: partidos e movimentos após os anos 1960.
MARX, Karl. Sobre a questão Judaica. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.
PILLETI, Nelson e PRAXEDES, Walter. Dom Helder Câmara: entre o poder e a profecia. São Paulo: Ática, 1997.
PORTELLI, Hugues. Gramsci e o bloco histórico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
SERBIN, kenneth P. A voz dos que não tem voz. In: História Viva: Temas brasileiros: A Igreja Católica: Fé e transformações. São Paulo: 1997.
_____. Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura. São Paulo. Companhia das Letras, 2001. 

JORNAIS E REVISTAS CONSULTADOS
Amigos do Povo. São Paulo. 1979.
Expositor Cristão. São Bernardo do Campo. 1968.
Jornal da Tarde. São Paulo. 1968.
O Cruzeiro. São Paulo. 1970.
Pasquim, Rio de Janeiro. 1978.
Si je ne brûle pas
Si tu ne brûles pas
Si nous ne brûlons pas,
Comment les ténèbres
Deviendront-elles clarté ?

Nazim Hikmet, poète communiste turc (1901-1963), traduit par son ami Garaudy